Manipulação articular nas dores das costas

Introdução

Independente das estatísticas, o evento “dor nas costas” acomete uma grande parte da população. Como seria interessante se na mesma intensidade que esta morbidade física acometesse em dores a população, apresentassem soluções eficazes! Mas, nem sempre é o que acontece principalmente em nosso sistema público de saúde. É atraso, descaso, talvez desconhecimento mesmo, pois em meu trabalho de conclusão de curso tanto alunos como professores me revelaram não conhecer a ‘manipulação articular’ como meio de tratamento e prevenção eficaz para uma coluna vertebral saudável. Este pequeno trabalho tem por objetivo mostrar que é possível viver com qualidade de vida se a coluna vertebral for adequadamente tratada, e as terapias manipulativas tem contribuido muito para minimizar dores nas costas.

Histórico

A medicina manual é tão antiga conforme Greeman (2001), quanto à ciência e a arte da medicina, há indícios do uso de procedimentos da medicina manual na Tailândia antiga confotme esculturas de 4000 anos, também praticados pêlos egípcios antigos, até mesmo Hipócrates, pai da medicina moderna, usou procedimentos da medicina manual, particularmente técnicas de tração e alavancagem no tratamento de deformidades da coluna vertebral. Também, Galeno, Celisies e Oribásio referem-se ao uso de procedimentos manipulativos. Porém, no início do século XIX o Doutor Edward Harrison, graduado em 1784 pela Edinburgh University, desenvolveu respeitável reputação em Londres utilizando procedimentos da medicina manual. No século XIX surgiu os "endireitadores de ossos" (bonesetters), na Inglaterra e Estados Unidos. O trabalho de Hutton, habilidoso e famoso “bonesetter”, levou médicos eminentes como James Paget e Wharton Hood a relatarem em publicações médicas de prestígio, como o Rritish cal Journal e The Lancet, que a comunidade médica devia prestar atenção ao sucesso dos clínicos não-ortodo-xos de banesetting. Nos Estados Unidos, a família Sweet praticou o bonesetting com maestria na região da Nova Inglaterra de Rhode Island e Connecticut. Há relatos que os descendentes da família Sweet emigra¬ram para o oeste na metade do século XIX. Sir Herbert Barker foi um renomado bonesetter inglês que trabalhou até o primeiro quarto do século XX e sua distinção foi tal que chegou a ser nomeado cavaleiro da coroa.

A OMS (2005) confirma que a manipulação da coluna remonta a Hipócrates, mas foi o DD Palmer que em 1895 formou a primeira escola para a formação de quiropraxistas nos Estados Unidos da América em Davenport, Iowa, em 1897. Palmer desenvolveu a teoria de quiropraxia e o método a partir de uma variedade de fontes, incluindo a manipulação médica, bonesetting e osteopatia. Com a ajuda de um paciente e amigo, o Reverendo Samuel Weed, Palmer nomeou sua nova ciência de Chiropractic (quiropraxia), derivada de duas raízes gregas: Chiro (Quiro) – mãos e Praxis – praticar, o que significa “praticar com as mãos”, aplicar com as mãos.

A Osteopatia conforme Alvarenga et. al. (2004) é uma técnica de origem norte americano desenvolvida pelo Dr. Andrew Taylor Still, no século XIX, a fim de favorecer as estruturas ósseas a voltarem a seu lugar original deixando a natureza cumprir o seu papel. Góis (2006) especifica a osteopatia como um tratamento surgido nos Estados Unidos, cujo criador foi o Dr. Andrew Taylor-Still (1828-1917), que apresentou os grandes princípios desta medicina natural. Ainda Greeman (2001) afirma que apesar do século XIX ter sido um período de tumulto e controvérsia na prática médica, surge dois indivíduos que iriam influenciar profundamente o campo da medicina manual, Andrew Taylor Still, M.D., foi um médico treinado dentro dos moldes de treinamento por preceptores em vigor naquela época e D.D. Palmer foi um dono de mercearia que se tornou médico de manipulação, autodidata.

MA de AVBA (manipulação articular de alta velocidade e baixa amplitude)

A manipulação conforme Tovo (2007) é uma terapia manual nas disfunções reversíveis aparelho locomotor, pode até produzir um estalido audível, o que não indica sucesso ou fracasso em seu propósito de conseguir a mobilidade. A OMS – Organização Mundial da Saúde reconhece que terapia manipulativa é todo processo onde a mão usada, para mobilizar, ajustar, manipular, aplicar a tração, massagem, estimular ou influenciar a saúde.

Para a NCOR – Conselho Nacional de Pesquisa Osteopática (2010) no relatório ‘A Introdução a Osteopatia’ a manipulação articular de AVBA é uma técnica direta que usa uma combinação de alta velocidade e baixa amplitude de forças para aumentar a amplitude de movimento, é especializada, muito eficaz se aplicada por profissionais devidamente treinados, a osteopatia e a manipulação articular não são sinônimos.

Segundo Lawrence et. al. (2008) a CCGPP – Comissão Científica do Conselho sobre as orientações e parâmetros da prática de Quiropraxia realizou uma revisão de literatura 887 documentos. Resultados da pesquisa concluiu que a manipulação da coluna vertebral reduz os sintomas e melhora a função em pacientes com lombalgia crônica, tanto em lombalgia aguda como subaguda. A utilização de exercícios em conjunto com a manipulação aumenta a velocidade e melhora os resultados, bem como minimiza a recorrência episódica.

ABQ - Associação Brasileira de Quiropraxia (2010) em seu relatório “Relação custo benefício” cita Agência para Políticas de Tratamento de Saúde e Pesquisa do governo dos EUA publicou um relatório sobre diretrizes clínicas para tratamento de lombalgia aguda (dor nas costas), concluiu que a manipulação da coluna é um dos tratamentos mais seguros e eficazes para a maioria dos casos de dor aguda na região Lombar, “acelera a recuperação da dor aguda na coluna lombar” e que “oferece tanto o alívio da dor como a melhora funcional”.

Os osteopatas, quiropráticos e terapeutas manuais são treinados para executar manipulações e ajustes no organismo, essas técnicas podem mobilizar as articulações, melhorar a gama de movimentos, relaxarem os músculos e reduzir a dor muscular. (CHAITOW, 2002)

A ação manual conforme Vargas (2003) como parte da fisioterapia com finalidade terapêutica visam equilibrar as diversas alterações musculares, osteoarticulares, orgânicas, funcionais e dolorosas. Atuam sobre restrições de mobilidade de qualquer elemento conjuntivo de desordens mecânicas ou bloqueios funcionais. Trata-se duma terapêutica rigorosa, metódica, treinada, científica, anamnésia minuciosa detalhada, com estudo e exploração, valorização do paciente, provas complementares, base fisioterápica de anatomia, fisiológica e do processo fisiopatológico.

Manipulação articular X Lombalgia

Segundo “OMS (2005) a manipulação articular é um procedimento manual que aplica um impulso dirigido para mover uma articulação além da sua amplitude fisiológica de movimento, sem ultrapassar o limite anatômico”. O movimento rápido é o thrust que consiste em aplicação manual súbta de uma força diferencial controlada sobre uma parte apropriada do corpo, cuja aplicação gera o ajuste ou ajustamento.

Greeman (1996) esclarece o conceito das barreiras, onde a amplitude fisiológica é a barreira fisiológica (ponto final de ADM ativo), é dentro dela que funciona a barreira elástica, espaço que pode ser atingido de forma passiva. Já o Limite anatômico é a barreira anatômica, preenchida por um pequeno espaço dito parafisiológico é onde ocorre o estalido provocado pela manipulação articular. Góis (2006) explica que é neste Limite anatômico onde ocorrem as disfunções: os Quiropatas usam o termo “subluxação” e “fixação”, Osteopatas chamam de “disfunção somática”, Fisioterapeutas usam “disfunção”, “barreira” e “perda de jogo articular”. Ainda diz que o diagnóstico de uma disfunção somática é feito analisando quatro itens representados pelas iniciais ARTT.
A (asymmetry) – assimetria;
R (range) – amplitude de movimento;
T (texture) – mudanças na textura tecidual;
T (tenderness) – presença de tensão tecidual.
Estes mesmos autores classificam a disfunção somática a nível facetaria em agudas e crônicas.

Dor nas costas e Lombalgia

Conforme Rech (2007) lombalgia é a designação dada, no Brasil, a um processo doloroso que se instala na cintura pélvica, onde o paciente apresenta-se com algum grau de posição antálgica (dolorida) e nesta condição ocorre incapacidade lombar, impossibilidade de realizar uma tarefa, pode ser por dor, deficiências físicas ou ambas, os mais comuns de todos os sintomas músculo esqueléticos que acometem a população em geral. A lombalgia crônica é a dor persistente durante três meses no mínimo, corresponde 20% a 30% dos pacientes com lombalgia, a idade desses pacientes varia entre 45 a 50 anos.

Silva et. al. (2004) destaca as dores lombares crônicas como um problema de saúde pública, por exemplo, na Noruega sua prevalência foi de 2,4% e 1,7%, respectivamente, para homens e mulheres. Este tipo de dor contínua por longo período de tempo e com níveis epidêmicos na população em geral, afeta muitos aspectos da vida, distúrbios do sono, depressão, irritabilidade e em casos extremos ao suicídio.

Góis (2006) destaca incidência de dor lombar a de 5 % ao ano, mas alerta que em alguma fase da vida 80% dos indivíduos terão dor lombar. Quando ocorrer compressão de nervos lombar ou sacra é ciatalgia, 40% dos indivíduos terão ao longo da vida. Em 85% dos pacientes, o diagnóstico é sindrômico.

E segundo Azevedo, Choratto e Stabille (2007) pacientes encaminhados em 2001 para tratamento fisioterápico, entre 100 pacientes 23 eram portadores de lombalgias, concluindo que 2001 a lombalgia foi o distúrbio de maior incidência entre os atendimentos fisioterápicos.

Efeitos e Benefícios da manipulação articular

Aliviar a dor lombar restaura a mobilidade articular, restaura a mobilidade entre as camadas de tecido mole ou entre tecido mole e osso, produz efeito reflexo muito intenso sobre todas as estruturas (CARVALHO, 2008). Afeta a dinâmica dos fluidos dos tecidos (sangue, linfa, líquido extracelular e sinovial), facilita o fluxo para dentro e para fora do tecido, melhora o ambiente celular e auxiliando o processo de reparo (TOVO, 2007).

Superar os resultados obtidos em tratamentos alopáticos com analgésicos e até mesmo de outros tratamentos alternativos. Reduz a secreção de citocinas pró-inflamatórias, observada em cultura de células sanguineas de indivíduos saldáveis que receberam manipulação articular vertebral. Reduz a sensibilidade dolorosa do paciente por aumentar a concentração plasmática do apiácel B-endorfinas cinco minutos após a intervenção. Alteração dos níveis plamáticos do metabólico da prostaglandina (KOLBERG, 2009).

A manipulação articular em pacientes com dor lombar crônica, conforme Góis (2006) atua em espasmos musculares, disfunções de sistema articular e previne qualquer processo degenerativo articular de sintomas. Por isso, Marques (2006) afirma existir evidências sobre uso da manipulação na dor lombar com rápida melhora da dor e maior satisfação do paciente.

Licciardone et. al. (2005) realizou um estudo de revisão sistemática sobre o tratamento manipulativo em coluna vertebral e dor lombar em 525 indivíduos sintomáticos, os ensaios ocorreram no Reino Unido e Estados Unidos com resultados significativos na redução da dor, o que podem eliminar ou reduzir custos adicionais substanciais em drogas que possuem efeitos adversos graves.

Ainda para ABQ - Associação Brasileira de Quiropraxia (2010) a manipulação da coluna é um dos tratamentos mais seguros e eficazes: acelera a recuperação da dor aguda na coluna lombar, oferece tanto o alívio da dor como a melhora funcional.

Sendo a dor lombar uma condição que atinge e incomoda a vida de milhões de pessoas em todo o mundo e que a mesma sabidamente aumenta muito os gastos dos cofres das instituições públicas e privadas para o seu tratamento e prevenção, faz-se necessário descobrir e divulgar a eficiência de alguns tratamentos para a diminuição desta dor (CARVALHO & PAMATO, 2008)

Tratamentos

Tenho realizado avaliações e tratamentos das dores nas costas utilizando ‘terapias combinadas’, apesar de me preocupar no embasamento científico e da anatomia, neurologia, fisiologia e nos conhecimentos cinesioterápicos, também não abro mão dos recursos terapêuticos alternativos com suas avaliações elaboradas nos conceitos holísticos (os tratamentos holísticos veem um problema de saúde não apenas na sua vertente física, mas também como o resultado de desequilíbrios energéticos e até emocionais).

Indicações de manipulação articular:

Torcicolos, cervicalgias, cervicobraquialgias, dorsalgias, lombalgias agudas e crônicas, síndrome do piriforme, lesões por esforço repetitivo, tendinites.

Possíveis causas dos distúrbios (subluxações):

Desequilíbrio pélvico (resulta em DCMI), inclinações de vértebras (laterais, anteriores/flexão, posteriores/extensão), rotações de vértebras (laterais ou oblíquas), escorregamentos de vértebras (anterior ou posterior), protrusões discais, stress.

Referências:

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Data: 12/01/2011

Evandro Luiz

Fisioterapeuta Evandro Luiz